Maria era uma rapariga inteligente: com apenas nove anos gostava de todos os números e de todas as letras, inventava histórias para contar aos seus amigos sobre as mais fantásticas aventuras, e falava como se conhecesse do mundo mais que a sua cidade. Apesar de a acharem uma menina demasiado teimosa para a sua idade, todos os que conheciam Maria gostavam dela, tal como ela gostava de tudo e de todos, à excepção de uma coisa: SOPA. Fizesse chuva ou fizesse sol, fosse Inverno ou fosse Verão, com massas ou com espinafres – não importava. Maria não gostava de sopa desde que se lembrava de existir e os seus pobres pais já não sabiam o que fazer para a convencer, já tinham experimentado tudo.
-“Come a sopa.” – Dizia-lhe a mãe, pondo-lhe uma tigela de sopa de feijão vermelho à frente.
-“Não.” – Respondia Maria, sem pensar duas vezes.
No dia seguinte, ao jantar, repetia-se sempre a mesma cena.
-“Come a sopa.” – Dizia-lhe a mãe, pondo-lhe uma tigela de sopa de espinafres à frente.
-“Não.” – Respondia Maria, sem pensar duas vezes.
E no dia seguinte, ao jantar, voltava a acontecer o mesmo.
-“Come a sopa.” – Dizia-lhe a mãe, pondo-lhe uma tigela de sopa de letras à frente.
-“Não.” – Respondia Maria, olhando ainda para a tigela e pensando que as letras da sopa estavam a ser desperdiçadas, já que agora só poderiam ser utilizadas para ela escrever NÃO.
Passavam-se dias, meses, anos… E Maria continuava sem comer uma única colher de sopa. Quando fez doze anos, a menina que não gostava de sopa jantou com toda a sua família – vieram primos próximos, primos afastados, primos que não eram mesmo primos e, aquela de quem Maria tinha mais saudades, a sua avó.
Depois de estarem todos sentados à mesa, chegou a altura da sopa.
“Nem no meu aniversário me dão descanso!” – pensou Maria, ao ver uma tigela novamente à sua frente. No entanto, antes que pudesse dizer a palavra “Não”, algo naquela sopa lhe chamou a atenção.
-“O que é isto?”- Perguntou a menina à avó, que estava sentada ao seu lado.
-“Sopa, minha querida.” – Respondeu a senhora, com um olhar conhecedor que só alguém sábio e que já viu de tudo na vida consegue fazer.
-“Eu sei que é sopa, avó. Mas nunca tinha visto uma sopa desta cor... Consegue ser mais estranha que as outras! E tem fios, parece que alguém andou a cortar tirinhas de alguma coisa e a pôr para aqui.”
-“Não há mais nenhuma sopa desta cor e tão boa. Esta sempre foi a minha sopa preferida e não acredito que não a vás provar. É Caldo Verde, querida, é uma sopa tradicional da cidade onde casei com o teu avô… Que dia mais bonito que foi o nosso casamento na cidade da Trofa. E esta sopa, esta foi a primeira coisa que comemos depois de casados e agora é a tua vez de a provares, vais ver que vais gostar.”
Se a princípio Maria não tinha dito que não por estar curiosa, a curiosidade tinha agora passado. Por muito que gostasse da avó, não ia comer aquela sopa. Ela não gostava de sopa.
Ao perceber o que se estava a passar, a mãe pediu:
-“Vá Maria, come a sopa. Pela tua avó.”
-“Não”- Foi a resposta.
-“Maria, estou-te a avisar. A tua avó vai ficar magoada se não provares o Caldo Verde.” – Continuou a mãe.
-“Não como a sopa. Eu não gosto de sopa.”
Por esta altura toda a família estava a olhar para Maria, e o pai decidiu intervir:
-“Filha, experimenta só, sopa faz bem e tem imensas vitaminas. Se queres ser saudável tens de comer a sopa.”
-“Não. Nunca comi sopa e não vou comer agora.”
Por momentos, houve silêncio, mas o pai acabou por concluir:
-“Não comes a sopa pois não? Então amanhã de manhã vou-te mostrar aqueles que queriam comer sopa mas não têm a mesma sorte que tu.”
Maria limitou-se a olhar para baixo, apesar de não ter conseguido deixar de pensar que só alguém maluco a poderia achar uma pessoa com sorte por ter uma tigela de sopa à frente todos os dias. Aliás, só alguém maluco poderia QUERER comer sopa.
O resto do jantar passou alegremente, cantaram-se os parabéns, entregaram-se presentes e, no final, todos se despediram e regressaram às respectivas casas.
Na manhã seguinte já se aproximava a hora de almoço quando Maria foi com o pai dar uma volta, tal como ele tinha prometido. Depois de andarem durante cerca de dez minutos, chegaram a um local da cidade onde Maria nunca tinha ido. Em frente a eles estava um edifício grande, de porta aberta. A menina estranhou aquele sítio mas o pai incentivou-a a entrar, e ela assim o fez. Já lá dentro, olhou à volta e estranhou ainda mais o que viu: uma sala grande com várias mesas, algumas pessoas já sentadas e outras tantas numa grande fila. À frente da fila estava uma mesa e, atrás da mesa, uma senhora com uma touca de cozinheira na cabeça, a distribuir algo que Maria não conseguia ver.
“Com uma fila tão grande só podem estar a dar chocolates!” – pensou a menina, virando-se para o pai e perguntando se podiam ir para a fila.
-“Queres mesmo ir para a fila?” – Perguntou-lhe o pai – “Já viste para que é?”
-“Sim, estão a dar qualquer coisa, algo bem bom de certeza!” – Confirmou Maria, convencida de que não podia estar errada.
Foi então que o pai lhe disse para olhar atentamente à volta, e ela assim o fez. Finalmente Maria entendeu o que ele queria dizer – todas as pessoas que estavam sentadas nas mesas tinham uma tigela à frente, uma tigela que só podia ter sopa.
-“Não percebo… Porque é que estão aqui numa fila tão grande, por causa de uma tigela de sopa? Ainda se fosse por algo melhor… Mas mesmo assim… Não podem comer sopa em casa?”
-“Maria, não me parece que eles tenham possibilidade para comprar sopa, muitos deles nem têm casa…”
Nesse momento passou à frente deles um menino que não podia ter mais de sete anos, com uma tigela na mão, enquanto se dirigia para uma das mesas onde a mãe dele estava sentada:
-“Mãe! Olha! Hoje ainda havia sopa para mim! E para ti também! E é Caldo Verde! Tivemos tanta sorte!”
Ao ouvir isto Maria ficou boquiaberta mas compreendeu, finalmente, porque é que tinha sorte: tinha sorte porque todos os dias lhe ofereciam uma tigela de sopa, uma tigela que nem todas as pessoas podiam ter e que podia tirar a fome a muitos; essas pessoas dariam tudo por ter alguém que conseguisse olhar por ela como os seus pais faziam.
Maria voltou para casa e, nessa noite, a mãe pôr-lhe uma tigela de Caldo Verde à frente, tal como no dia anterior.
-“Come a sopa.” – Disse-lhe a mãe.
Desta vez Maria não disse que não, apenas ficou calada, a olhar para a sopa. Estranhando o silêncio, a mãe perguntou-lhe o que se passava. Foi então que a menina olhou para ela fixamente, muito séria, e perguntou:
-“Mãe, podes fazer sopa para aqueles que precisam, tal como fazes para mim?”
-“Para os que precisam?” – Questionou a mãe, espantada.
-“Sim… Para aqueles que não têm mães que lhes façam sopas… Para aqueles que não têm a minha sorte…”
Foi então que a mãe percebeu o que a filha lhe estava a dizer e, com um sorriso, respondeu:
-“Posso Maria. Nem sei porque ainda não fiz isso… A partir de hoje, prometo que vamos ajudar em tudo o que pudermos. Agora… Come a sopa.”
E a Maria comeu.
FIM
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